Ninguém me pediu opinião, eu sei. Na escola é costume não ligar muito
ao que pensam os alunos. Mas eu gramo a escola, gosto dos meus amigos
e há uma data de professores que até são fixes.Ando no 8.º, tenho bué
de disciplinas, algumas não dá para entender. Estudo acompanhado para
um gajo de 14 anos? Formação Cívica? Não percebo bem, é uma coisa de
90 minutos por semana em que o stôr, que é o director de turma (nós
dizemos DT), está sempre a mandar vir, a dizer para nos portarmos bem.
Da Matemática não me apetece falar, o stôr tem pouca pachorra para
tirar dúvidas. História é um bocado seca e percebo mal o livro, faço
confusão porque não contam a vida dos reis como o meu avô me
explicava, por isso estudo para os testes e depois esqueço tudo.Não,
não pensem que venho aqui criticar a escola, já disse que gosto de lá
andar. O problema é que aquilo anda mesmo esquisito, podem crer. Já o
ano passado os stôres andavam às turras com a ministra e apareciam nas
aulas chateados, um gajo mandava uma boca e levava logo um sermão, às
vezes diziam mesmo para nos queixarmos à ministra, como se chibar
fosse coisa que desse jeito. Mas este ano está bem pior: falamos com
os professores nos intervalos, "olá, stôr!" e eles andam mesmo
tristes, a minha stôra de Inglês, que eu curto bué, diz que está
"desmotivada" e que está farta de grelhas de avaliação e de pensar em
objectivos. Eu de grelhas não percebo nada e, quanto aos objectivos,
os meus são divertir-me uma beca e passar o ano, não quero mesmo ficar
para trás porque os meus pais dão-me nas orelhas e fico sem os meus
amigos, que é uma das coisas porreiras que a escola tem.Por isso peço
a todos que se entendam. Ver os professores aos berros na rua é uma
coisa que eu compreendo, têm todo o direito porque nós às vezes também
andamos, o problema é que assim ainda há menos gente a preocupar-se
connosco. Os nossos pais não têm tempo, andam sempre a trabalhar e
ficam descansados porque estamos na escola a aprender e a lutar pelo > nosso
futuro, mas agora a coisa está preta, os nossos stôres estão
cansados, o que é mau para nós: quem nos ajuda quando estamos aflitos?
Eu sempre contei com um ou dois dos meus stôres, o ano passado quando
me achava um monstro (cheio de borbulhas e a sentir que as miúdas não
olhavam para mim) foi a stôra de Português que me chamou no fim da
aula e conversou comigo, bastou ela ouvir com atenção e dizer que
compreendia o que eu sentia para me sentir muito melhor. E quando o
Tavares disse que se ia matar porque a rapariga com quem andava foi
vista a curtir com um gajo qualquer, foi o nosso DT que falou com ele
e lhe arranjou uma consulta no psicólogo.Não percebo nada da guerra
dos professores, só sei que deve ser justa porque eles esforçam-se
muito, já pensaram no que é aturar a malta, sobretudo alguns que só
querem fazer porcaria, põem-se aos berros nas aulas e não obedecem, às
vezes até palavrões dizem para os stôres? Muitos de nós querem
aprender, mas o barulho é grande e há muita confusão, há lá gajos,
repetentes e isso, que só lá estão porque são obrigados, depois há
outros que são de fora e não percebem bem português, outros ainda têm
problemas em casa e passam mal, a Vanessa que tem um pai alcoólico e
que chora quase todos os dias ainda por cima foi empurrada na aula por
um colega que só lá está a armar confusão... o DT disse que nós
devíamos ser responsáveis e que tínhamos de acabar com isso, mas eu
acho que a ministra devia era dar força aos professores para serem
melhores, o meu pai diz que ela às vezes está certa mas eu não
concordo, se vejo todos, mesmo todos os stôres da minha escola contra
ela devem ter razão, os professores às vezes erram mas são importantes
para nós, precisamos de estudar para ver se nos livramos do
desemprego, isso é que é verdade!Por isso espalhem este mail, façam
forward para quem quiserem. Digam aos que mandam para terminarem com
as discussões que já estamos fartos e como na minha escola somos todos
contra isso dos ovos (uma estupidez), *digam à ministra e aos
sindicatos que já chega!* Façam uma escola melhor, ajudem os
professores a resolver todos os problemas das aulas (ninguém pode
fazer isso em vez dos stôres) e arranjem maneira de nós aprendermos
mais, para ver se percebemos melhor o mundo e nos safamos, o que está
a ser difícil.
Quem quiser dê opinião, o meu mail é brunovanderley@gmail.com, sou do
8.º E da Escola Básica 2/3 do Lá Vai Um.
Daniel Sampaio. "O Natal que eu quero". Público (revista "Pública"),
30.Novembro.2008.
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